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A JUSTIÇA, A PROPRIEDADE DOS HOMENS DE BEM E OS PÉS DESCALÇOS

Não vamos entrar no mérito legal da desocupação do prédio da Telerj, nem sobre as suspeitas de comércio de lotes feitas pela mídia corporativa e pelo governo para legitimar essa ação. O fato, este é o único fato, é que 5.000 pessoas foram desalojadas da noite para o dia de suas moradias repetindo o ocorrido anos atrás no Pinheirinho de São José dos Campos. O prefeito em Paes alega que cumpriu ordens judiciais, fez exercer seu Estado de polícia, herdado da ditadura, Estado que segundo os dados da Human Rights mata pelo menos dez mil pessoas por ano no país (números subestimados). A juíza alega a reintegração com base no direito de propriedade. Um direito de propriedade que não investiga a origem fraudulenta dessa propriedade. O mesmo direito brasileiro que não quer debater a utilização ou não da propriedade em geral, mesmo quando o interesse social deve prevalecer, neste caso da Telerj, para piorar, uma posse apenas, resultante de uma concessão com prazo para retornar à União. Mídia corporativa e sociedade conservadora (leia-se os homens de bem cariocas e até uma boa parte daquela que se julga de esquerda, assustada com o empoderamento da população no país) criminalizaram a ocupação, a resistência à perda da moradia, e a luta desigual feita por jovens de pés descalços atirando pedras contra um robocópico aparato militar. Qualquer semelhança com a Intifada palestina não é mera coincidência. Tanto lá (Israel) quanto cá (Brasil) dois estados policiais militares servem para defender (com as armas, com o Direito e com a concessão à mídia) a vida de desperdícios dos mais abonados. Vive-se num país anacrônico, em parte moderno, em parte ainda escravocrata, convivendo em áreas diferentes que frequentemente coincidem e se sobrepõem. Um direito arcaico à base de recursos criados para defender os mais poderosos, uma jurisprudência que muda vagarosamente como a nossa abertura do golpe de 64, legislação que penaliza o ladrão pobre e empossa no Senado o ladrão rico. Uma sociedade violenta, e não falo dos meninos de pés descalços, fala do ódio e do rancor desses que aplaudem nos comentários online os torturadores, alguns até tem a “coragem” de torturar, falo da violência impregnada no rancor e o ódio desses homens de bem que não querem enxergar a miserabilidade do país em que vivem, mas querem ter o direito de pagar caro para assistir em paz ao jogo dos jogadores brasileiros pretos na Copa – que contradição. “É o meu direito” muitos proclamam, defender minha propriedade. Enquanto isso a violência só aumenta, os assassinatos anuais também, e hoje, o Estado somente consegue controlar uma cidade como o Rio com o exército na rua. É apenas o começo. Lá fora, todos já sabem de qual Estado e sociedade de antigo regime ainda se trata a brasileira. Até nas letras de um jornal conservador como El País as notícias ganham mais credibilidade. Invasores são “okupas”, vândalos são “manifestantes”, a especulação imobiliária carioca é voraz, e o Rio, cartão postal de fachada em ano de Copa, já não cola mais. O futuro não parece promissor e ninguém quer discuti-lo.

http://internacional.elpais.com/internacional/2014/04/11/actualidad/1397242755_574959.html

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