Arquivo da tag: desmatamento

Parque Estadual Pedra Branca – Núcleo Camorim

Dia 25 de outubro, vésperas de segundo turno das eleições, a disciplina de História e Meio Ambiente do curso de História da UNIRIO promoveu uma visitação ao Parque Estadual Pedra Branca, núcleo Camorim, um dos últimos redutos florestais dentro da Guanabara. A visita percorreu a trilha do açúde chegando ao topo a 435 m. de altura, onde se encontra a represa que abastece a água de parte da baixada de Jacarepaguá. A construção iniciada em em 1908 demonstrava, já naquela época, o empenho de alguns conservacionistas em preservar as nascentes de água do município. Em vão, desde então, muito pouco foi feito nsse sentido e a água consumida no Rio tende a vir cada vez de mais longe. Na visita foi possível observar a transformação da paisagem da floresta secundária, à medida que íamos subindo percebe-se sua recomposição de modo mais cosnistente, tornando-se mais espessa. A área do Pedra Branca, cuja transformação em parque data e 1974, sofreu no decorrer da história com diversos ciclos de apropriação de seus recursos naturais. Pensando desde a época colonial, com o engenho do Camorim da família de Gonçalo de Sá, ainda no final do século XVI, cuja mata de encosta servia à extração da madeira necessária, principalmente, às atividades de transporte da cana por carros de boi. Fora do Parque, a capela de São Gonçalo do Amarante pertencente ao antigo engenho, de 1625, restaurada, é um bom início da visita. Num segundo momento, já sob controle dos frades beneditinos, a área passa a ter ação das culturas de subsistência de escravos e libertos, no que com o tempo foi assumindo um caráter de quilombo disperso durante o XIX e começo do XX. Bananeiras e outra plantas exóticas atestam a presença modificadora do homem non meio. No século XX a pressão sobre a mata foi principalmente feita pelos carvoeiros que produziam carvão à lenha, base do abastecimento dos fogões das casas cariocas da priemira metade do XX, quando ainda não havia a proliferação dos fogões a gás.

Os vestígios deixados pelo homem na floresta são visíveis durante a caminhada, ainda mais se o passeio for acompanhado da excelente leitura do livro As Marcas do Homem na Floresta, organizado por  Rogério Ribeiro de Oliveira, disponível em pdf: http://www.editora.vrc.puc-rio.br/docs/ebook_marcas_homem_na_floresta.pdf

 

Mais informações sobre o Pedra Branca encontram-se no guia de parques: http://www.inea.rj.gov.br/cs/groups/public/documents/document/zwew/mdi2/~edisp/inea0026328.pdf

E nas páginas do inea e da associação de amigos: http://www.parquepedrabranca.com/p/nucleo-camorim.html

Quem ainda não conhece, precisa de conhecer.

Boia visita

2014-10-25 12.14.21

2014-10-25 12.14.26

2014-10-25 12.21.302014-10-25 13.21.192014-10-25 13.29.03

Deixe um comentário

Arquivado em ecoturismo, História e meio ambiente, Parques

Marãiwatsede é dos Xavante!!!

No texto a seguir, o antropólogo Estevão Rafael Fernandes, professor da Universidade Federal de Rondonia, conta um pouco da história da Tribo Indigena Xavante de Marãiwatesede, que luta pela ocupação de sua morada histórica em meio aos interesses comerciais do agro-negócio e do estado brasileiro que banca o avanço do capitalismo na Amazônia.

É uma honra para mim dizer que conheço os Xavante de Marãiwatsede. Sua história e trajetória, ao longo das últimas décadas é uma pequena mostra de seu caráter e, mais que isso, de como um Estado passa por cima de suas leis em nome do interesse econômico de alguns, e de modelos muito suspeitos de “desenvolvimento econômico”…

Em agosto de 1966, cerca de duzentos e cinqüenta índios Xavante foram deslocados por meio de aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) da região de Marãiwatsede para a Missão Salesiana na aldeia Xavante de São Marcos, 400 km ao sul. Cerca de duas semanas depois, quase cem deles morrem de sarampo. Em agosto de 2004, trinta e oito anos depois, duzentos e oitenta índios Xavante, remanescentes do grupo deslocado pela FAB, retornam à Marãiwatsede. O que se sabe sobre esse grupo específico, na etnologia sobre os Xavante, é relativamente pouco. Lopes da Silva aponta que por volta dos anos 1920, os Xavante fundam, na região da Serra do Roncador, a aldeia de Isorepré (“Pedra Vermelha”), de onde virão a partir em diferentes direções e em vários momentos, facções diversas que fundarão novas aldeias. Uma dessas aldeias é Marãiwatsede, na região do rio Suiá-Missu, cerca de 100 km ao norte.

Em 1961, um fazendeiro paulista chamado Ariosto da Riva adquire uma área de 1,8 milhão de hectares, compreendendo a região de Marãiwatsede. Aos poucos, fazendo uso de brindes, consegue atrair os grupos da região, convencendo-os a formar sua aldeia (chamada de Wede’omo’re ) próximo ao acampamento dos “mateiros” contratados por Ariosto. Como a presença indígena se mostrava um inconveniente para a ocupação da área, os donos da fazenda procuraram a FAB, os Salesianos da missão de São Marcos e o Serviço de Proteção ao Índio para proceder a transferência dos índios de Marãiwatsede para a aldeia de São Marcos.

Dessa transferência, entre outras coisas, algumas se destacam na memória dos Xavante sobreviventes: (1) a epidemia de sarampo que matou cerca de 100 índios nas duas primeiras semanas em São Marcos; (2) o choque causado pela mudança de ambiente nesse processo – Marãiwatsede fica em área de mata de transição, um ecossistema diferente dos campos de cerrado os quais tradicionalmente esses índios ocupam; e (3) ao chegarem à Missão, contam os mais velhos que as crianças foram separadas de seus pais e levadas a internatos salesianos, onde eram obrigados a desempenhar tarefas como lavagem de roupas e proibidos de falar na língua xavante.

Em 1972 o grupo sobrevivente sai da aldeia São Marcos e se desloca para a região de Couto Magalhães (atual T.I. Parabubure) e de lá para a T.I. Areões, em 1982. Três anos depois, em 1985, migram para outra Terra Indígena (Pimentel Barbosa), onde fundam a aldeia Água Branca.

Em 1992 a fazenda Suiá-Missu encontrava-se sob controle da Liquifarm S/A, braço brasileiro da multinacional italiana Agip Petroli. Durante a Eco 92, a empresa se compromete verbalmente a devolver parte da área original aos Xavante. Em abril de 1992 o Grupo de Trabalho responsável pelos estudos de identificação da área conclui seus trabalhos, sendo que em dezembro de 1998 é homologada a T.I. Marãiwatsede, com 165.241 ha.

Entretanto, entre o final dos estudos e a homologação a área identificada como indígena foi fruto de invasões e grilagens sistemáticas, encabeçadas por grupos políticos locais e nacionais – processo que perdura até os dias de hoje. Sistematicamente os Xavante buscaram retornar a seu território pelas vias formais até que em 2003, já cansados e com a situação na T.I. Pimentel Barbosa insustentável, os anciãos resolvem retornar a aldeia de origem, antes de falecerem. Em novembro de 2003, um grupo formado por cerca de 280 indivíduos tenta reocupar a área homologada, sendo impedidos por um grupo de posseiros que bloqueavam a BR-158.

Foi neste contexto que conheci os Xavante de Marãiwatsede, quando concluía minha dissertação de Mestrado. A situação que encontrei na época era a seguinte: de um lado da rodovia de chão batido, algumas barracas de lona preta onde ficavam os homens (mulheres e crianças ainda não haviam chegado ao local) e as barracas dos funcionários da Funai. Separados por cerca de 50 metros, com um pequeno córrego entre os dois grupos, outro acampamento, feito de pequenas taperas de palha, onde ficavam os posseiros. Meses depois chegaram ao acampamento mulheres e crianças da aldeia Água Branca, ficando o grupo acampado, nessas condições, até agosto de 2004 (10 meses, no total). Pela total falta de saneamento e devido a precariedade das condições de saúde, dezenas de crianças foram hospitalizadas e algumas chegaram a falecer, sendo enterradas na beira da Rodovia ( http://www.brasiloeste.com.br/noticia/1088/ ).

As notícias chegaram então aos grandes veículos de imprensa e finalmente, em 10 de agosto de 2004, amparados por uma decisão do STF, é permitido aos Xavante ocuparem uma pequena área de uma fazenda vazia na região, onde permanecem até hoje ainda sob clima de tensão permanente – recentemente posseiros cercaram um ônibus que transportava jovens de Marãiwatsede para uma escola em um município vizinho, incendiando-o e ferindo gravemente dois jovens, e as cruzes que marcam os pequenos túmulos das crianças, enterradas a beira da estrada, são sistematicamente arrancadas pelos não-indígenas da região.

Nesses 13 anos trabalhando com os Xavante, posso dizer que meu coração está em Marãiwatsede: é onde está minha família xavante e onde furei minha orelha. Mais que isso, é a aldeia onde me sinto em casa, por mais que o poder público e o Estado tenham abandonado aqueles índios à própria sorte: como é possível a maior aldeia Xavante, com mais de 700 pessoas sobreviver em tão pouca terra, com quase nenhum curso d’água decente e sem ter o que plantar. Em 2006 circulou uma carta minha pela internet ( http://www.amazonia.org.br/noticias/print.cfm?id=226881 ) já denunciando que, enquanto o poder público dormia sobre o processo, os posseiros vilipediavam a área indígena. Também não é de hoje a denúncia de que se buscou negociar as obras na BR-158, tentando comprar os índios de Marãiwatsede com promessas de tratores e maquinário: promessas rechaçadas veementemente pelos indígenas, posto que a única coisa que eles sempre desejaram, desde que foram expulsos de sua área, em 1966, foi poder resgatar a dignidade que lhes havia sido retirada em troca de cabeças de gado.

Hoje o território indígena é alvo sistemático de contrabando de madeira e lidera as estatísticas nacionais de queimadas ( http://www.globoamazonia.com/Amazonia/0,,MUL1027947-16052,00-TERRA+INDIGENA+EM+MT+PERDE+IBIRAPUERAS+COM+DESMATAMENTO.html ), e, em um contexto em que relatos de indios isolados são desconsiderados nas proximidades da usina de Jirau (RO), bem como as demandas indígenas são totalmente desconsideradas na construção de Belo Monte (PA), não é de causar estranheza que, em pleno século XXI testemunhemos um descalabro como o que ocorre em Marãiwatsede.

Marãiwatsede é dos Xavante e não se fala mais disso

Deixe um comentário

Arquivado em Indigenas

Projeto Ciclovida: em busca das sementes naturais.

Projeto Ciclovida: uma aventura de Inacio e Ivania, dois caboclos brasileiros que desvelam o crime cometido pelas grandes corporacoes de alimentos e agrotoxicos e pelos laboratorios de pesquisa de transgenicos contra a producao de alimentos.
Lifecycle é um documentário narrativo que segue um grupo de pequenos agricultores de Ceará numa viagem atravessando o continente da América do Sul de bicicleta, na campanha de resgate das sementes naturais. Os viajantes documentam a dominação dos agrocombustíveis no campo e o deslocamento de milhões de pequenos agricultores e comunidades indígenas.

www.Ciclovida.org

O Brasil é responsável por 12% das lavouras geneticamente modificadas no mundo. É o que mostra estudo divulgado pelo Serviço Internacional para a Agrobiotecnologia. Os viajantes documentam a dominação dos agrocombustíveis no campo e o deslocamento de milhões de pequenos agricultores e comunidades indígenas. Cultivos e matas nativas estão sendo substituídos por desertos verdes de monoculturas transgênicas onde nada mais, planta ou animal, pode sobreviver aos agrotóxicos. O documentário faz parte do projeto Ciclovida e foi produzido por Matt Feinstein e Loren Feinstein com colaborações de ativistas brasileiros.

Lifecycle foi escolhido melhor documentário na categoria conservação do Green Screen Environmental Festival Film/2010 e selecionado para o Blue Planet Film Fest em Los Angeles, EUA e Byron Bay Film Festival em Australia.

Acompanhe o blog do CAVE, em breve Lifecycle sera exibido aqui em Santos.

1 comentário

Arquivado em Agricultura familiar, Agricultura organica, anti-globalizacao, Autonomismo, cooperativismo, Desenvolvimento sustentavel, Ecologia Social, relacao ser humano / natureza

Vamos barrar Belo Monte!!!

Repassamos a mensagem da AVAAZ trasnmitida pela companheira Cristina como uma ultima tentativa de impedir a construcao de Belo Monte, mais um elefante do capitalismo insustentavel rumo a destruicao do planeta. Leiam o texto e assinem o manifesto que segue.

O Presidente do IBAMA se demitiu na quarta-feira passada devido à pressão para autorizar a licença ambiental de um projeto que especialistas consideram um completo desastre ecológico: o Complexo Hidrelétrico de Belo Monte.

A mega usina de Belo Monte iria cavar um buraco maior que o Canal do Panamá no coração da Amazônia, alagando uma área imensa de floresta e expulsando milhares de indígenas da região. As empresas que irão lucrar com a barragem estão tentando atropelar as leis ambientais para começar as obras em poucas semanas.

A mudança de Presidência do IBAMA poderá abrir caminho para a concessão da licença – ou, se nós nos manifestarmos urgentemente, poderá marcar uma virada nesta história. Vamos aproveitar a oportunidade para dar uma escolha para a Presidente Dilma no seu pouco tempo de Presidência: chegou a hora de colocar as pessoas e o planeta em primeiro lugar. Assine a petição de emergência para Dilma parar Belo Monte – ela será entregue em Brasília, vamos conseguir 300.000 assinaturas:

https://secure.avaaz.org/po/pare_belo_monte/?vl

Abelardo Bayma Azevedo, que renunciou à Presidência do IBAMA, não é a primeira renúncia causada pela pressão para construir Belo Monte. Seu antecessor, Roberto Messias, também renunciou pelo mesmo motivo ano passado, e a própria Marina Silva também renunciou ao Ministério do Meio Ambiente por desafiar Belo Monte.

A Eletronorte, empresa que mais irá lucrar com Belo Monte, está demandando que o IBAMA libere a licença ambiental para começar as obras mesmo com o projeto apresentando graves irregularidades. Porém, em uma democracia, os interesses financeiros não podem passar por cima das proteções ambientais legais – ao menos não sem comprarem uma briga.

A hidrelétrica iria inundar 64.000 hectares da floresta, impactar centenas de quilômetros do Rio Xingu e expulsar mais de 40.000 pessoas, incluindo comunidades indígenas de várias etnias que dependem do Xingu para sua sobrevivência. O projeto de R$30 bilhões é tão economicamente arriscado que o governo precisou usar fundos de pensão e financiamento público para pagar a maior parte do investimento. Apesar de ser a terceira maior hidrelétrica do mundo, ela seria a menos produtiva, gerando apenas 10% da sua capacidade no período da seca, de julho a outubro.

Os defensores da barragem justificam o projeto dizendo que ele irá suprir as demandas de energia do Brasil. Porém, uma fonte de energia muito maior, mais ecológica e barata está disponível: a eficiência energética. Um estudo do WWF demonstra que somente a eficiência poderia economizar o equivalente a 14 Belo Montes até 2020. Todos se beneficiariam de um planejamento genuinamente verde, ao invés de poucas empresas e empreiteiras. Porém, são as empreiteiras que contratam lobistas e tem força política – a não ser claro, que um número suficiente de nós da sociedade, nos dispormos a erguer nossas vozes e nos mobilizar.

A construção de Belo Monte pode começar ainda em fevereiro.O Ministro das Minas e Energia, Edson Lobão, diz que a próxima licença será aprovada em breve, portanto temos pouco tempo para parar Belo Monte antes que as escavadeiras comecem a trabalhar. Vamos desafiar a Dilma no seu primeiro mês na presidência, com um chamado ensurdecedor para ela fazer a coisa certa: parar Belo Monte, assine agora:

https://secure.avaaz.org/po/pare_belo_monte/?vl

Acreditamos em um Brasil do futuro, que trará progresso nas negociações climáticas e que irá unir países do norte e do sul, se tornando um mediador de bom senso e esperança na política global. Agora, esta esperança será depositada na Presidente Dilma. Vamos desafiá-la a rejeitar Belo Monte e buscar um caminho melhor. Nós a convidamos a honrar esta oportunidade, criando um futuro para todos nos, desde as tribos do Xingu às crianças dos centros urbanos, o qual todos nós podemos ter orgulho.

Deixe um comentário

Arquivado em Desenvolvimento sustentavel, Indigenas, Politica

Sustentabilidade: a escolha libertária V

Mais uma série de ações e medidas para reverter a degradação ambiental planetária e promover uma real sustentabilidade. Mostramos as falsas bases em que se construiu o discurso ambiental atual e a gestão ambiental corporativa.

Luxo

A sociedade de consumo induz à aquisição de mercadorias inúteis e cujos efeitos negativos no meio ambiente são gravíssimos e desnecessários. O luxo é um agravante a esta já insustentável condição. O luxo é vulgar porque é inútil. O luxo pé vulgar porque traz efeitos ambientais negativos que degradam os ecossistemas e trazem danos à saúde das pessoas. O luxo é vulgar porque demonstra, com a ignorância de quem o prático, como o mercado consegue extrair lucro de qualquer um: se os ricos não tivesse o luxo como fariam para gastar seu dinheiro?

Mercado

O mercado dos pequenos produtores, dos artesãos, das capacidades técnicas locais é bem vindo. O custo reduzido dos produtos industrializados pode ter um preço altíssimo em termos sociais e ambientais. O mercado analisa quanto que os indivíduos podem gastar desde seu nascimento e cria produtos vendáveis para todas as demandas da vida, desde os indispensáveis e necessários até as mercadorias inúteis, hiperdimensionadas e supérfluas. As corporações globais tem compreendido que talvez nunca consigam vender um automóvel ou um eletrodoméstico a todos os habitantes do planeta e portanto, trabalham para comercializar bens primários (água,grãos, etc.) ampliando assim os mercados dos produtos e dos processos industrializados e monopolísticos também sobre os mais pobres. Procurar ficar o quanto possível longe desse mercado.

Mobilidade

É um dos setores que mais contribui para as alterações climáticas do planeta e prejudica a saúde dos cidadãos. A mobilidade apresentada como sendo um elemento fundamental da liberdade individual é, ao contrário, a maior limitadora dela. O crescimento da mobilidade leva a uma configuração de assentamentos populacionais de baixa densidade e ao aumento da distância entre os lugares de residência , de trabalha, de passeio. A “liberdade” torna-se um dever: não é possível usar os serviços e os equipamentos sem se mover. Somos obrigados a nos mover. Começar a mover-se menos quando tivermos o poder da escolha (nas horas vagas), a mover-se menos para o trabalho (reduzindo os deslocamentos, otimizando os empregos), e procurar soluções de moradia coligadas às relações pessoais e o trabalho.

Meio Ambiente (natureza e sociedade)

As condições do meio ambiente estão diretamente ligadas à organização social da comunidade do entorno. As comunidades de coletores e de caçadores tem uma relação muito leve com os ecossistemas, não levam a produtividade ao colapso, mantem reduzidos o número da população, não acumulam. Uma sociedade que exalta a propriedade privada ou estatal dificilmente conseguirá garantir o uso comum dos bens e uma relação de não exploração dos ecossistemas. Uma sociedade global mercantil, autoritária, artificial, alienada como aquela definida pelo modelo econômico atualmente praticado, tem o acinte através de seus intelectuais de afirmar que a natureza é uma invenção social, valorizando-a como paisagem, domesticando-o como jardim, mas tornando-o em qualquer lugar dependendo da ação humana e valorizada somente se capaz de gerar lucro.

Normas

Nem sempre as normas ajudam a reduzir o impacto ambiental do ser humano. Ao contrário, frequentemente motivado pelas lógicas da produção definem comportamentos que são absolutamente contrários aos objetivos da qualidade ambiental. Fazem anos que se trabalha para reduzir a embalagens e contudo existem sérias normas sanitárias que obrigam os estabelecimentos a usarem embalagens descartáveis, ou, nos supermercados, previamente embalados. É essa normatização que facilita a difusão dos produtos descartáveis não penalizando-os pelos custos sociais e ambientais do descarte; é essa normatização que agilizam a industrialização definindo procedimentos para o controle de qualidade e modos de fabricação impraticáveis para os pequenos produtores e artesãos; é essa normatização que define os financiamentos para cultivos agrícolas estranhos ao meio (a soja), que regula o fornecimento de combustíveis para os veículos particulares, etc. As normas na sociedade de consumo não são criadas pelos cidadãos, nem pelos seus “representantes”, mas pelos grandes interesses corporativos cujas demandas não são pautadas pela bondade mas pela ampliação do mercado e dos lucros (privatização da água, da energia, do solo). Tenham cuidado com as normas para o meio ambiente.

OVM (Transgênicos)

Criados com a justificativa de responder às necessidades alimentares, respondem na realidade à exigência das grandes corporações produtoras em aumentarem a sua produtividade por hectare e de penetrarem no interior do mercado de sementes que atualmente é um segmento, em grande parte, ainda administrado diretamente pelos pequenos produtores. O aumento da produtividade por hectare, como sabido, não melhora as condições da alimentação do planeta, na medida em que o problema da alimentação está ligado à distribuição da produção (muitos países produzem excedentes que jogam fora), à concorrência (muitos países subsidiam os seus produtores o preço dos alimentos produzidos), à estrutura social no uso dos terrenos e portanto depende da produtividade local (as grandes urbanizações tronam as populações mais dependentes de alimentos externos). Os transgênicos não são úteis, podem ser danosos ao meio ambiente, são nocivos para as comunidades locais e para a biodiversidade natural.

Pesquisa

A maior parte da pesquisa é conduzida por entidades privadas que tem um interesse específico na definição de novas mercadorias. Da medicina até os equipamentos militares (que são os setores que mais empregam fundos de pesquisa) passando pelos cosméticos, aos transportes, à química fina e á construção civil, os sujeitos que têm maior disponibilidade econômica investem em pesquisa, não querendo esclarecer necessidades, mas somente os interesses específicos dos financiadores. Os êxitos da pesquisa não são respostas às exigências da população – mesmo porque a pesquisa se desenvolve segundo os mesmo critérios econômicos que regulam o modelo atual e definem seus limites – mas resultados que respondem ao máximo proveito do mercado promotor. Esta pesquisa é socialmente e ambientalmente útil somente em sua mínima parte. Se a pesquisa é capaz de resolver problemas então ela não pode deixar de considerar que a solução se encontra não em inventar mercadorias, mas em modificar sistemas sociais. A pesquisa qualitativa deve ser ligada aos interesses da sociedade, e em seu benefício, desenvolvendo não somente temas específicos mas trabalhando a interação entre a ciência e as formas como a sociedade vive.

Plásticos

Não existem materiais demonizáveis mas existem materiais cuja utilizarão é muita crítica do ponto de vista ambiental e social e o plástico é um destes. O plástico é derivado do petróleo que é seguramente o recurso cujo controle conduziu ao maior número de conflitos armados no último século; é um recurso em vias de se esgotar, altamente poluidor. É, portanto, um recurso social e ambiental muito negativo. O plástico é difundidíssimo pelas suas características que lhe rendem a produção muito simples, e a sua venda, devido aos custos de produção reduzidíssimos, permite a realização de lucros gigantescos. Abusamos do plástico: na construção civil, na decoração de interiores, nos objetos, nos instrumentos. Aonde se vai tem plástico em um número elevadíssimo de componentes diferentes, com aditivos de todos os tipos, tantos e tantos que nem nos é possível reconhecer o conjunto de substâncias presentes neles. Isso traz um gravíssimo problema na fase de produção (lançamento de resíduos contaminantes, risco de incêndio) e também em sua fase de descarte. O plástico além de tudo permite que grande parte dessa produção seja do tipo use e jogue fora, o que aumenta exponencialmente a quantidade de resíduos recicláveis. Reduzir a presença do plástico, assim como de todos os materiais poluidores, somente para suas funções absolutamente necessárias e indispensáveis leva à libertação de uma submissão, à retomada de soluções técnicas locais, à eliminação de uma grande quantidade de dejetos.

Produtos descartáveis

Uma das maiores aberrações da atualidade. Injustificada e incompreensível. Qual a vantagem que temos individualmente com um produto descartável? A possibilidade de não lavar louça, toalhas? E para os aparelhos de barbear? E para os isqueiros? Simplifica a ação? Mas qual é a dificuldade em recarregar um isqueiro? E que incomodo traz ir ao mercado com a nossa própria sacola? É ao contrário a busca pelo desapego em relação ao objeto e a redução de sua identidade específica que está na base da sociedade de consumo. Todos os objetos devem ser equivalentes de modo a poderem ser jogados fora e recomprados, geralmente o mesmo produto, para aumentar o mercado. O enorme custo em termos ambientais e econômicos do descarte desses materiais não justifica as frágeis vantagens de seu uso. Não usar produtos descartáveis.

População

O número de pessoas sobre a terra está em contínuo aumento. O aumento da população altera as relações com os recursos naturais. Em muitas áreas do planeta os habitantes são em quantidade muito superior às potencialidades dos lugares o que provoca limitações na produtividade alimentar dos territórios aráveis. A densidade aumenta, o espaço individual diminui, os espaços naturais começam a escassear tanto em quantidade como em qualidade, os comportamentos são sempre mais regulamentados, a produção torna-se industrializada. Uma demagogia política incentiva a reprodução sem necessidade, haja vista a quantidade de pessoas já existentes, e altera as relações entre as escolhas individuais, o prazer, o bem estar e a consciência coletiva. Podemos apontar alguns fatores que levaram ao aumento populacional desenfreado: o modelo econômico que quer a ampliação do mercado, as religiões que aumentam seus adeptos, as nações que engrandecem com o número de habitantes. Interesses, dogmas, medos, nada disto está ligado ao bem individual e coletivo.

Poupança

O dinheiro poupado tem um impacto ambiental menor do que aquele gerado pelo acúmulo de mercadorias. Enquanto a economia anterior à sociedade de consumo era baseada na poupança, a atual está empenhando todas as disponibilidades dos indivíduos na aquisição de bens, mesmo que se endividando para o futuro e comprando mercadorias inúteis. As mercadorias por um lado tornaram-se instrumento para extrair riqueza e por outro para acumulá-la: as duas são um desastre para o meio ambiente.

Qualidade/quantidade

Faz tempo que se tende a reduzir a estratégia de sustentabilidade ao aumento da eficiência das ações praticadas. A razão em curso diz que se um automóvel atual polui significativamente menos do que um carro de quarenta anos atrás, as condições do planeta tendem a melhorar. Mas ,um automóvel de quarenta anos atrás andava muito menos quilômetros por ano do que um atual, tinha uma vida muito mais longa (e, portanto, usava ao máximo a energia que lhe foi gasta durante a construção), e fazia parte de um parque automotivo que era uma parcela mínima do atual. O aumento da qualidade das mercadorias é condição necessária mas não suficiente para a solução de nossos problemas. A ela tem que ser aplicada uma significativa redução da quantidade de mercadorias.

Tradução de Carlo Romani.

Leia na íntegra em http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/337/dossier_sostenibilita.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Agricultura familiar, Anarquismo, anti-globalizacao, Autonomismo, Contaminacao quimica, cooperativismo, Desenvolvimento sustentavel, Ecologia Social, Politica, poluiçao ambiental, relacao ser humano / natureza

Sustentabilidade: a escolha libertária IV

Continuamos nossa série para um mundo verdadeiramente sustentável. Não se preocupe, isso não é para já, mas se quisermos num futuro não tão distante continuar vivendo na Terra sem ter que exterminar alguns bilhões de habitantes (como os tecno-fascistas do poder global já planejam) estas práticas devem ser adotadas. Nos chamam de loucos, utópicos, que queremos voltar a ser índios. Não. As propostas apresentadas são o resultado da mais ampla capacidade humana de convívio ambientalmente harmônico. Por isso junte-se a nós: PARA SALVAR O PLANETA É PRECISO DESTRUIR O CAPITALISMO.

Eficiência (aumento da)

Termo definido em âmbito industrial com base na demanda de parte da sociedade para reduzir os efeitos negativos da produção e em relação à crise do petróleo dos anos setenta e da consequente necessidade de reduzir o consumo de energia. A eficiência prevê que as mercadorias sejam substituídas por outras em um contínuo melhoramento da eficiência (requisitada também pelas regras de qualidade dos produtos). Dessa maneira, “novas” mercadorias substituem “velhas” mercadorias, com a mesma função e com as antigas ainda funcionando. O uso instrumental desse conceito permitiu o aumento de novos segmentos de mercado (as pessoas compram mais vezes o mesmo produto em níveis de eficiência sempre superiores) demandando, porém, uma enorme quantidade de energia e produzindo paralelamente uma enorme quantidade de resíduos e dejetos. Dado que o aumento da eficiência vem qualificado sobre cada unidade de produto, a vantagem da melhor eficiência alcançada com o melhoramento do produto, é absorvido e ultrapassado pela desvantagem do aumento da quantidade de produtos em uso. Não cair na armadilha da pseudo eficiência, nem nos juízos de qualidade sobre as mercadorias nem em sua aquisição; manter as mercadorias pelo tempo mais longo possível verificando sua efetiva funcionalidade em função de suas necessidades. A melhor eficiência é a redução do consumo de mercadorias.

Equilíbrio

A quase totalidade dos assentamentos humanos não está em equilíbrio com o meio ambiente; consomem uma quantidade de energia superior àquela disponível localmente, emitem contaminantes de diferentes tipos e em quantidades superiores à capacidade de recuperação dos ecossistemas. O conjunto dos assentamentos humanos e da atividade planetária consome recursos e produz emissões em quantidades superiores à capacidade de suporte do planeta. A situação encontra-se em total desiquilíbrio tanto localmente quanto globalmente. O futuro dos ecossistemas naturais está comprometido ,mas também o futuro da vida humana que depende da natureza para viver. O risco de colapso aumenta com o tempo e com a manutenção das características do modelo econômico e social praticado e o crescimento exponencial dele. Recolocar em equilíbrio os assentamentos humanos com os recursos utilizados em escala local, conectando os consumos aos recursos naturais realmente disponíveis, diversificando-os em função das características dos lugares e, portanto, de sua produtividade, surge como um elemento indispensável para pensar em um futuro planeta sustentável.

Esgotamento dos solos

Assentamentos agropecuários e infraestruturas agrícolas se expandem ocupando todos os terrenos. As áreas ocupadas perdem suas potencialidades ecológicas, não são biologicamente produtivas. As áreas ocupadas tornam-se desertos dentro de ecossistemas que tem todo outro tipo de capacidades, áreas de difícil recuperação natural, que permanecem desflorestadas no tempo e são diretamente responsáveis pelo aquecimento global. Essa condição agrava-se quando ocorre nos territórios que tenham maior produtividade agrícola. As grandes quantidades de solo.

Especialização dos espaços

Os espaços físicos do planeta são utilizados para a produção de alimentos, sob gestão das grandes corporações de produção e distribuição do agronegócio de modo especializado. Em um lugar se produz soja, no outro trigo. A monocultura destrói as comunidades locais criando um mercado que elas não podem controlar, limitam sua autonomia alimentar, as empobrecem tecnicamente e culturalmente, fazendo com que desapareçam nessa reconfiguração do processo distributivo global. A recusa das áreas especializadas de produção é a garantia da autonomia das comunidades locais. As multiculturas, a manutenção das capacidades técnicas gerais e das produções específicas de cada lugar, não somente ajudam a sociedade, como também conservam a diversidade biológica e a qualidade ambiental.

Fontes renováveis

O uso da energia de fontes renováveis deve ser acompanhado da contínua diminuição das emissões das fontes não renováveis e de uma significativa redução do consumo.

Frear a velocidade

Fazer menos coisas, diminuir a velocidade da vida pode ajudar a aumentar a consciência do que se faz. Provavelmente aumentaria a possibilidade de que os processos decisórios sejam participativos, com certeza reduziria o consumo de recursos e a quantidade de emissões.

Globalização

É um mecanismo inventado e sustentado pelas maiores corporações econômicas para aumentar as trocas, concentrar a produção e a gestão do mercado, e fazer crescer exponencialmente os lucros. A globalização é defendida por intelectuais que, ignorando a condição de desastre em curso, a consideram como o modelo de crescimento cultural e social do planeta. Globalização é o não lugar, onde o indivíduo não tem peso, onde o indivíduo, padronizado, interpreta o papel de máquina, onde a comunidade não existe, onde existe um governo econômico que dita as regras sociais. Não comprar produtos globalizados, não utilizar soluções globalizadas, prestar atenção às capacidades produtivas locais, às características sociais das mercadorias , às comunidades.

Habitar

A cultura contemporânea desestruturou o sentido desta palavra parcelando a atividade que compõem uma jornada: uma zona onde se dorme, uma onde se trabalha, outra onde nos divertimos, etc.: a completude da habitação se perdeu com o desenvolvimento das ações produtivas e comerciais (aquisição e consumo). Os territórios são ignorados, não há ligação com eles, desconhecemos o meio ambiente e as pessoas que nos cercam, nem ao menos aquela consciência simples e eficaz do próprio lugar que tinham as culturas tradicionais. Os lugares são pré-fabricados pelos interesses econômicos (vejam os centros comerciais, os hipermercados, as salas multiuso, etc.) e são padronizados à imagem do comércio da atualidade. Neles os indivíduos tem somente a função de compradores d mercadorias, mas não podem contribuir para sua construção e para o seu uso. Desse modo não moramos mais nos lugares porque não existe mais uma relação com o espaço em que vivemos. Participar ativamente da definição dos espaços construídos, recusar as compras nos centros comerciais, nos hipermercados, recusar a cadeia produtiva que uniformiza a alimentação, a arquitetura dos espaços, o próprio espaço de vida, é a luta a ser empreendida.

Iluminação

O planeta é muito iluminado de modo artificial; a noite desapareceu nas cidades. Reduzir a iluminação, (re)escurecer a noite.

Indústria

Sistema produtivo que precisa de uma profunda revisão ambiental e social. A partir da redefinição da real necessidade das mercadorias, da relação geográfica entre os lugares de produção e de uso, da redução do deslocamento das mercadorias. A indústria é uma modalidade produtiva que não precisamos abandonar, desde que suas finalidades sejam realocadas do domínio econômico para o domínio social e ambiental.

Industrialização

O objetivo da industrialização não é o de produzir mercadorias, mas o de gerar lucros: as mercadorias são excedentes, os processos produtivos poluidores e socialmente desestruturados, a qualidade dos produtos é reduzida, a duração predefinida é limitada. A industrialização é o principal fundamento do mercado global e produz resíduos como se fossem mercadorias. A industrialização da sociedade levou a modelos de organização social da vida que seguem os mesmos critérios estabelecidos pela produção na indústria: divisão por etapas, fraccionamento das contribuições individuais, desconhecimento do processo como um todo, controles de qualidade auto-referenciados e setoriais. Precisamos desindustrializar as nossas mentes e utilizar somente os produtos industriais que sirvam e garantam a qualidade ambiental e social desejadas sem sermos reféns da cultura industrial.

Infraestrutura

Se quisermos aumentar a mobilidade das mercadorias e das pessoas, privilegiando os deslocamentos, não é necessário discutir o aumento da infraestrutura. Dado que não existe um limite estabelecido para a satisfação humana, nem para quão rápido se façam os percursos, nem para a quantidade de deslocamentos feitos, torna-se evidente que, perseguindo este modelo, as infraestruturas nunca serão suficientes. A cada aumento da infraestrutura existente corresponde sempre uma maior dependência delas. Por exemplo, a construção de rodovias facilita o uso de automóveis e portanto leva ao contínuo aumento da mobilidade sobre rodas (particular e de carga), das emissões de poluentes, dos consumos de energia, das alterações no meio ambiente, dos danos à saúde dos cidadãos e favorecerá o parcelamento dos assentamentos humanos e a concentração da produção. A atual mobilidade humana é exagerada e é gerada pela especulação imobiliária (que obriga as pessoas de menor renda a distanciarem-se das cidades já consolidadas) e pelo deslocamento das mercadorias (cuja produção sendo concentrada necessita de ser transportada para os locais onde os monopólios levaram à falência os pequenos produtores locais). Opor-se ao aumento da infraestrutura (em particular àquela rodoviária e aeroportuária, além dos trens de alta velocidade) quer dizer opor-se ao modelo econômico produtivo e de ocupação, limitando seu desenvolvimento.

Inovações tecnológicas

O novo assumiu um valor positivo absoluto. No marketing das mercadorias tornou-se um valor favorável independentemente da real qualidade do produto. A consideração positiva sobre o que é novo aplica-se indistintamente a todas as ações e produtos da sociedade contemporânea com tal intensidade que inovação tornou-se um tema de interesse prioritário. A inovação útil é aquela que melhora a qualidade ambiental e social das ações, dos processos, dos produtos valorizando não somente os efeitos com a totalidade da ação efetuada. É necessário enfrentar o tema da inovação com toda a crítica disponível para se verificar quais as reais vantagens que um modelo novo tem, sem sermos entusiastas per si da novidade, conscientes de que atrás desse entusiasmo induzido se escondem os problemas que a inovação tecnológica traz.

Extraído de http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/337/dossier_sostenibilita.htm

Deixe um comentário

Arquivado em Agricultura familiar, Anarquismo, anti-globalizacao, Autonomismo, cooperativismo, Desenvolvimento sustentavel, Ecologia Social, Politica, poluiçao ambiental, relacao ser humano / natureza

Sustentabilidade: a escolha libertária II

Um mundo ambientalmente sustentável é possível. Não essa sustentabilidade da Cosipa, da Carbocloro, da Cubatão verde, das montadoras de veículos, da Petrobrás, da Bandeira azul do Tombo, do Porto de Santos, da fabricação de ISO 14.000, de EIA-Rimas falsificados, de IBAMA e CETESB que nada tem de ambientais, assim como os cursos de Ciências Ambientais de onde saem esses pseudo técnicos. Não estamos falando desse BESTEIROL verde a que um conluio de capitalistas, arrivistas, falsos defensores do meio ambiente, a serviço de seu próprio enriquecimento submergiram toda a luta ambientalista das décadas de 1970 e 1980. Sustentabilidade é autogestão, controle da vida pelos próprios indivíduos, luta contínua contras as corporações, repensar completamente a existência, torná-la menos individualista mais coletiva. A sustentabilidade não é uma palavra do vocabulário capitalista pois ela implica em coletividade, comunidade, cooperação, controle dos recursos pela população. De A a Z apresentaremos as pautas para a verdadeira sustentabilidade:

Adaptação às mudanças climáticas

A compreensão de que as mudanças climáticas em curso determinam profundas transformações aos ecossistemas naturais evidenciam a necessidade de se adaptar o uso às novas condições do planeta. A tomada de consciência das mudanças e das causas antrópicas que as determinaram deveria implicar na revisão dos modos de uso e não na privatização dos sistemas para obter a mesma produtividade. O uso intensivo dos sistemas naturais é acompanhado de uma condição de desequilíbrio do sistema e portanto de um incremento do risco de colapso. As adequações, quer dizer, as intervenções capazes de reduzir os efeitos das mudanças climáticas, podem ser positivas se comportam consigo um repensar sobre os erros cometidos e se não forem meros paliativos, sem a remoção das causas que determinaram as modificações climáticas.

Adequação dos espaços urbanos

Os habitantes adequam o espaço de suas habitações e teriam direito de adaptar às suas modalidades de vida os espaços de seus assentamentos. Atualmente os habitantes sofrem um tipo de organização urbana definida pela especulação imobiliária e, eventualmente, por um tipo de planejamento urbano em que não está previsto a ação ativa e direta do cidadão. Retomar essa delegação que a sociedade industrializada inicialmente e aquela de consumo atualmente cederam aos técnicos, recuperando a possibilidade de intervenção do cidadão e da comunidade, sem causar danos ao meio ambiente e incomodo às pessoas, deveria ser um aspecto positivo da cultura de uma nova sociedade.

Artesanato

O trabalho artesanal permite uma gestão melhor do processo produtivo pelo indivíduo. Além de tudo, é uma modalidade que permite a permanência de uma capacitação técnica no interior da comunidade. Essa capacitação possibilita a construção e a manutenção de manufaturados em modo mais autônomo. O artesanato é caraterístico dos lugares e portanto está em harmonia com os recursos e as culturas locais, adaptando as transformações técnicas ao modelo do lugar. A difusão de uma cultura artesanal permite a redução da penetração do comércio corporativo global.

Autoprodução energética

Os megaprojetos de geração de energia, mesmo aqueles de fontes renováveis, concentram a produção, e portanto, o lucro, e retiram as comunidades locais da gestão de um aspecto fundamental da própria existência. Permitem o monopólio, a predefinição dos preços, mas principalmente implicam em um enorme desperdício de energia na distribuição e sobreprodução (que existe ainda que recolocada na rede). Realizar projetos locais, mesmo que individuais, (mini hidrelétricas, mini eólicas, biomassas, térmicas, solares, etc.) torna possível a redução dos impactos ambientais, o controle dos empreendimentos, a gestão direta dos custos e dos consumos pela própria comunidade.

Autoprodução de alimentos

Produzir diretamente o próprio alimento ou dirigir-se a quem o produz localmente reduz o mercado da alimentação industrializada, torna possível a autonomia alimentar dos territórios e comunidades, aumenta a possibilidade de controlar diretamente a qualidade dos produtos, gera trabalhos. Constitui uma forte ligação entre as comunidades e as áreas produtoras a ajuda a compreender a centralidade do equilíbrio entre o uso e a conservação das potencialidades naturais. Sustentar a autoprodução agrícola, participar e utilizar circuitos comerciais autogestionados.

Autoconstrução

A capacidade de construir e adaptar os espaços onde morar é inerente ao ser humano. Delegar totalmente esta prática a terceiros, não participar da construção e manutenção do próprio meio ambiente limita as potencialidades humanas e inibe a qualidade de vida. Os indivíduos podem contribuir diretamente ou indiretamente na definição do espaço físico onde moram, conscientes da necessidade de se trabalhar de modo a reduzir os efeitos negativos e diminuir o dano causado ao meio ambiente devido ao uso e à transformação do mesmo. Participar de processos de autoconstrução, construir a casa por si próprios ou ainda reformar as autoconstruções já existentes.

Automóveis

A cada dia grande parte dos cidadãos do mundo e entupida com uma obsessiva publicidade de veículos particulares sobre rodas. Se não existisse essa publicidade constante quase que certamente seriam vendidos muito menos automóveis, a nossa sociedade não seria automóvel-cêntrica, não teríamos problemas de poluição urbana, etc. etc. No modelo atual a mobilidade individual sobre rodas aparece para muitos territórios como algo indispensável e insubstituível (se pensarmos aos assentamentos distantes de casas espalhados por todos os lados). Mas não é assim. Podem ser organizadas muitas outras modalidades de transporte a partir daquele individual a motor (motocicletas de pequena cilindrada) bicicletas ou outros que possam ser usados em percursos de menor distancia ou recorrer a carros de uso comum, de menor cilindrada e de dimensões menores. Pode-se fazer isso já, sem muito sacrifício, sem mudar as regras que existem: quem não que fazer individualmente essa mudança, quem possui como escolha de vida ter carros de grande cilindrada, de grande dimensão, novos é um indivíduo dono de uma cultura autoritária, poluidora e socialmente danosa.

Extraído de: http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/337/dossier_sostenibilita.htm



Deixe um comentário

Arquivado em Agricultura familiar, Anarquismo, anti-globalizacao, Autonomismo, Contaminacao quimica, cooperativismo, Desenvolvimento sustentavel, Ecologia Social, Politica, poluiçao ambiental, relacao ser humano / natureza

Sustentabilidade: a escolha libertária I.

Antídoto para um modelo incapaz de fornecer soluções positivas para o futuro.

Idéias para entender, viver e opor-se ao novo modelo de lucro.

Muita gente tem nos perguntado, ah vocês são anarquistas, que legal, mas o que vocês pretendem para o mundo, quais as suas propostas, que soluções vocês têm?

Com isso na cabeça, conversamos no CAVE sobre o que poderíamos apresentar de ideias que sintetizassem as nossas preocupações e, ao mesmo tempo, apontassem para uma nova direção no futuro. Encontramos a melhor resposta no dossiê Sustentabilidade organizado por Adriano Paolella e Zelinda Carloni e publicado na Revista A no. 337, de julho de 2008, Milão (Itália).

Nós vamos traduzir essa matéria e publicá-la  em uma série de posts seguidos.

Quem quiser pode ler o texto na íntegra em italiano ou em inglês no link:

http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/337/dossier_sostenibilita.htm

Premissa

A piora contínua das condições ambientais do planeta baliza, sem sombra de dúvida, que neste momento a humanidade não se encontra em condições de receitar uma política apta a inverter as tendências em curso. Apesar de haver uma consciência difundida e um profundo conhecimento científico das modalidades com as quais o homem altera o meio ambiente e sobre como essas variações comportam efeitos negativos, imediatos e duradouros para a saúde da Terra, apesar de haver todo o instrumental técnico necessário para modificar as causas, não é efetuada nenhuma ação abrangente que possa reduzir os fenômenos de degradação existentes.

Há uma dezena de anos o termo sustentabilidade tornou-se parte da linguagem cotidiana, indicando com isso a pesquisa e a prática de soluções que possam não piorar ainda mais as condições do planeta. Dessa maneira, apesar de a definição do termo parecer aleatória, mesmo assim, indica-se com ele a possibilidade de que existam escolhas concretas a serem perseguidas.

Atualmente é possível fazer um balanço sobre o quanto foi feito nesse sentido nos últimos trinta anos por várias dezenas de países, e por quase todas as organizações internacionais onde se enfrenta o problema da sustentabilidade, pode-se concluir que o modelo praticado piorou de modo significativo a já grave situação. E isso, apesar da imprecisão que gera o termo sustentabilidade, apesar da grande confusão terminológica criada pelos gestores ambientais para mistificar as próprias ações e apresentá-las como ambientalmente qualificadas. Os sucessos alcançados são parciais, específicos, locais e contribuíram para demonstrar não somente que outros percursos são possíveis de serem seguidos como mostrar que, mesmo existindo a capacidade técnica ela não é perseguida de modo consistente.

A grande confusão gerada interessa às modalidades com as quais vem sendo atribuído o adjetivo sustentável ou ambiental, aos projetos, às mercadorias, aos manufaturados, isso evidencia como a cultura deste modelo tenha uma má consciência. A má consciência de saber perfeitamente que um percurso de sustentabilidade muda profundamente a estrutura cultural, social e produtiva de uma sociedade e a vontade de não querer absolutamente mudá-la, mesmo com o risco da saúde de toda a população planetária. A sustentabilidade é incompatível com esse modelo, é alternativa. Porque fala uma outra língua. Se quisermos adotá-la, em primeiro lugar não é possível falar em crescimento, devemos reduzir as quantidades, redistribuir a riqueza para permitir uma melhoria do bem estar de muitos, eliminar a cultura competitiva do espelho que é a razão da corrida ao enriquecimento, eliminar a acumulação, aumentar a autonomia e o poder da comunidade.

Para bloquear a piora contínua das condições do planeta, não são suficientes os passos de lesma dos governos, é necessário receitar um processo amplo de requalificação e conservação ambiental que limite os interesses daqueles que são os motores desse modelo, que reeduque os lucros, que modifique a cultura alienada das pequenas vantagens de uma sociedade danosa para o meio ambiente e nociva para os humanos. Para fazer isso entendemos que devam ser adquiridos comportamentos individuais e coletivos que permitam sair da armadilha letal do cotidiano, da escravidão das mercadorias, da servidão a hábitos errados, do autoritarismo das decisões, da determinação dos poderes econômicos. Isso somente pode ser feito no âmbito da cultura libertária. Em seguida traçaremos pequenas reflexões voltadas para apresentar o quanto de insustentável existe no modelo praticado, o quanto é importante ter clareza sobre comportamentos aparentemente sustentáveis e quão facilmente praticáveis são outras formas de vida social no planeta.

(traducao Carlo Romani)

1 comentário

Arquivado em Agricultura familiar, Anarquismo, anti-globalizacao, Autonomismo, cooperativismo, Desenvolvimento sustentavel, Ecologia Social, Politica, relacao ser humano / natureza

Adeus, Vicente de Carvalho!

Ontem, cinco de novembro, houve outra audiência pública em Guarujá com os temas Retroporto, Pré-sal e desenvolvimento econômico. Como em outras oportunidades, a divulgação foi restrita e o local distante (UNAERP) levou poucos presentes, além dos alunos da instituição. Acompanhamos a fala da prefeita e dos outros integrantes da mesa e assistimos à exposição do plano de parceria público-privada que o executivo municipal propõe. Ainda não temos acesso ao mapa das intervenções, mas, resumindo, trata-se de uma enorme expansão da área retro-portuária, ocupando quase toda a margem direita da rodovia Domênico Rangoni, numa extensão de 4.000.000 km2. A área que foi declarada de utilidade pública em 2007 por ocasião do plano diretor elaborado pela gestão passada, cujo relatório técnico feito pelo CAVE instruiu a ação civil movida pelo MP de Guarujá que acabou arquivada, é definida como macro-zona de proteção ambiental, mas destinada a ações de desenvolvimento compatível e ocupação dirigida. Ver o relatório:

http://www.slideshare.net/coletivocave/plano-diretor-guaruja

Com esse artifício, uma área de restinga lindeira a maguezais pode ser completamente desmatada em nome do interesse público (quem é esse público?). Mas esse nem é o maior dos problemas. Essa área enorme destinada a pátio de containers e estacionamento de caminhões será utilizada por todos os terminais portuários atuais e futuros de Guarujá e de Santos (Embraport, Barnabé-Bagres, etc.). Isso acarretará um aumento brutal de tráfego pela Domênico Rangoni, tanto em sua extensão na ilha de Santo Amaro como no trecho anterior, na área continental de Santos. A esse quadro devemos acrescentar o aeroporto para aviões cargueiros que faz parte do projeto de integração modal. Dessa forma, Vicente de Carvalho que já se encontra sufocada entre o porto no canal e a rodovia, será totalmente circundada por atividades portuárias, retro-portuárias, aeroportuárias e industriais, que agregam poluição atmosférica, sonora, visual, aquática, evidentemente, diminuindo a qualidade de vida. Além de tudo isso, a própria prefeitura estima que com esses projetos a população do município alcance os 465 mil habitantes daqui a dez anos. Até agora, a proposta de desenvolvimento somente aponta para o crescimento econômico das atividades citadas e o aumento dos impactos sociais e ambientais sobre a população moradora, a vegetação nativa e a qualidade de vida. Há um plano para concessão da área, mas não há nenhum estudo sobre como ampliar a infra-estrutura de oferta de água e de esgoto e como ficará o trafego externo à área concedida. A própria Ecovias se manifestou temerosa quanto ao aumento de tráfego pesado num complexo rodoviário que já está novamente saturado. Aparentemente, o que a proposta anuncia é: primeiro uma concessão de uso comercial em uma área pública, ainda sem infra-estrutura compatível com o aumento de demanda que ocorrerá em todos os níveis; só num segundo momento, com os recursos gerados aos cofres públicos com a concessão, é que um provável investimento para dar sustentação ao agravamento dos problemas coletivos será feito. Ou somos todos loucos ou entendemos errado a premissa fundamental da sustentabilidade: “O CRESCIMENTO ECONÔMICO DEVE ESTAR SUBORDINADO A CONDIÇÕES ADEQUADAS DE INFRA-ESTRUTRA PARA GARANTIR A QUALIDADE DE VIDA EM TODOS OS NÍVEIS”.

A seguir mostramos de modo grosseiro numa fotografia aérea antiga de Vicente de Carvalho a localização da área de concessão com a zona de amortecimento de impacto (em vermelho) e o projeto da perimetral urbana para retirar o tráfego pesado das ruas dos bairros (em amarelo). Contudo, não há nenhum projeto de suporte ao aumento do tráfego nas rodovias administradas pela Ecovias (em azul). O distrito ficará completamente envolvido pela expansão do porto (roxo) e pelo aeroporto (rosa). Esperamos em breve obter o mapa da Prefeitura para fazermos um estudo detalhado dos impactos a serem causados.

5 Comentários

Arquivado em Baixada Santista, poluiçao ambiental, Porto de Santos

A Ecologia Social dos camponeses mexicanos

“Prêmio Nobel de Ecologia para agricultor mexicano”: esta a materia que nos foi enviada pela companheira Guadalupe Barcena e nos faz refletir e perguntar: Por que fatos como este nao sao noticiados pela grande midia. Este, mais um exemplo de que os trabalhadores quando podem, sabem se organizar e produzir por eles mesmos.

Poucos sabem, mas existe um prêmio “Nobel” de Ecologia. Este ano quem o ganhou foi Jesús León Santos, de 42 anos, um camponês indígena mexicano que realizou nos últimos 25 anos um excepcional trabalho de reflorestamento em sua região de Oaxaca, México. O nome da recompensa é “Prêmio Ambiental Goldman” (www.goldmanprize.org/theprize/about_espanol)

Até agora foi outorgado a defensores do meio ambiente de 72 países. Em 1991, o ganhou a africana Wangari Maathai, que logo depois obteve o Prêmio Nobel da Paz, em 2004.

Para Jésus, foi dado porque, quando ele tinha 18 anos, decidiu mudar a paisagem onde vivia na Mixteca alta, a “terra do sol”. Aquele parecia um panorama lunar: campos ermos e poeirentos, desprovidos de arvoredo, sem água e sem frutos. Tinha-se que percorrer grandes distâncias em busca de água e de lenha. Quase todos os jovens emigravam para nunca mais voltar, fugindo de semelhantes paragens e dessa vida tão dura. Com outros companheiros do lugar, Jésus León fixou-se o objetivo de reverdejar os campos. E decidiu recorrer a umas técnicas agrícolas pré-colombianas que lhe ensinaram alguns indígenas guatemaltecos para converter terras áridas em zonas de cultivo e matas.

Como levar esse projeto adiante? Fazendo reviver uma ferramenta indígena também esquecida: o tequio, o trabalho comunitário remunerado. Reuniu umas 400 famílias de 12 municípios, criou o Centro de Desenvolvimento Integral Camponês da Mixteca (Cedicam), e juntos, com recursos econômicos limitadíssimos, lançaram-se na grande batalha contra o principal culpado da deterioração: a erosão.

Nessa região Mixteca existem mais de 50.000 hectares que perderam uns cinco metros de altura de solo desde o século XVI. A criação intensiva de cabras, o sobre-pastoreio e a indústria de produção de cal que havia estabelecido a Colônia deterioram a zona. O uso do arado de ferro e o corte intensivo de árvores para a construção dos imponentes templos dominicanos contribuíram definitivamente para a desertificação. Jésus León e seus amigos impulsionaram um programa de reflorestamento. A pá e picareta cavaram valetas-trincheiras para reter água das escassas chuvas, semearam árvores em pequenos viveiros, trouxeram adubo e plantaram barreiras vivas para impedir a fuga da terra fértil.

Tudo isso favoreceu a recarga do aquífero. Logo, em um esforço titânico, plantaram ao redor de quatro milhões de árvores em espécies nativas, aclimatadas ao calor e parcas em absorção de água. Depois se fixaram na meta de conseguir, pra as comunidades indígenas e camponesas, a soberania alimentar. Eles desenvolveram um sistema de agricultura sustentável e orgânica, sem uso de pesticidas, graças ao resgate e conservação das sementes nativas de milho, cereal originário dessa região. Semeando, sobretudo uma variedade muito própria da zona, o cajete, que é uma das mais resistentes à seca. Planta-se entre fevereiro e março, que é a época mais seca do ano, com muito pouca umidade no solo, porém quando chegam as chuvas crescem rapidamente.

Ao cabo de um quarto de século, o milagre se produziu. Hoje a Mixteca alta est’a restaurada. Voltou a verdejar. Surgiram mananciais com mais água. H’a árvores e alimentos. E a gente já não emigra mais. Atualmente Jésus León e seus amigos lutam contra os transgênicos, e semeiam 200.000 árvores por ano. A cada dia eles fazem retroceder a linha da desertificação. Com a madeira das ‘arvores se pode resgatar uma atividade artesanal que estava desaparecendo: a elaboração, em oficinas familiares, de jogos de madeira e utensílios de uso cotidiano. Ademais, se enterraram em lugares estratégicos cisternas de concreto armado, de mais de 10.000 litros de capacidade, que também recolhem a água da chuva para regar as estufas familiares de orgânicos.

O exemplo de Jésus León é agora imitado por várias comunidades vizinhas, que também criaram viveiros comunitários e organizam temporariamente plantações maciças. Em um mundo onde as notícias, com frequência, são negativas e deprimentes, esta história exemplar passou despercebida.

AS REDES DE COMUNICAÇÃO SO INFORMAM O QUE INTERESSA AO CAPITAL!

Texto original em espanhol de Georgina Valdovinos Navarro

3 Comentários

Arquivado em Agricultura familiar, Agricultura organica, cooperativismo, Ecologia Social, relacao ser humano / natureza