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Marketing ambiental: Aqui não!

Quando no nosso primeiro post propusemos debater uma forma de desenvolvimento econômico que consideramos insustentável o fizemos porque entendemos que o momento atual da luta ambientalista é de profunda paralisia. Há uma anestesia geral da população com a captura da maior parte dos técnicos (biólogos, advogados, engenheiros, sociólogos) e, também, de grande parte dos ativistas, para atuar em modelos de gestão esquizofrênicos que partem do princípio paradoxal de aumentar os danos ambientais no futuro em troca de minimizar aqueles já causados no passado e chegam no marketing ambiental como meio de solução dos problemas.

As empresas instaladas na Baixada Santista abusam desse mecanismo de propaganda. Por exemplo, o outdoor da Fósfértil é verde enfatizando a cor de seu compromisso ambiental com a vida (mas, ela nos lega em forma de dejeto montanhas  amarelas de enxofre e fósforo).

A Cosipa fez propaganda de seu parque em Cubatão com os guarás-vermelhos voando felizes (mas, se alimentando de material orgânico contaminado com o benzo-a-pireno dejeto de seu processo de fabricação). A Dow, diz sua placa de publicidade, cuida dos jardins de Guarujá (mas mantêm enterrados em sua planta resíduos do ultra-tóxico agente laranja usado na Guerra do Vietnã). Olhando a publicidade, quem não conhece, pensa que Cubatão, que já recebeu o título de cidade mais poluída do mundo, realmente tornou-se uma cidade verde, o paraíso ecológico para o tratamento de asmáticos e tuberculosos (mas, quem a atravessa vê, respira, e sente o ar pesado que impregna o vale da morte). Leiam a matéria sobre Cubatão na Novo Milênio.

E a vocação portuária santista, símbolo do município, é martelada diariamente na imprensa pela propaganda dos terminais da Libra, da Coimex, entre outros (mas, os vazamentos de óleo, a dragagem do lodo contaminado, a destruição do pouco que resta dos manguezais e a poluição dos caminhões, não é noticiada). Por que?

A CETESB sabe do elevadíssimo grau de poluição atmosférica em Cubatão, sabe do elevadíssimo nível de contaminação por metais pesados do fundo do estuário de Santos e sabe os diferentes pontos onde estão enterrados os resíduos ultra-tóxicos, por exemplo, da Rodhia. Mas tem feito vista grossa nos últimos anos. O último trabalho de monitoramento desenvolvido pela CETESB e divulgado no ano de 2001, é categórico em afirmar que “alguns componentes encontrados nos sedimentos da região da Baixada Santista estão muitas vezes acima das concentrações que podem causar efeitos tóxicos aos organismos aquáticos”, apontando para áreas perigosas como “o rio Santo Amaro (ponto 8), próximo à indústria Dow Química, onde ocorrem concentrações de cádmio, chumbo, mercúrio, níquel, zinco, BHC, PAHs” (CETESB, 2001, Sistema estuarino de Santos e São Vicente: Programa de Controle de Poluição, p.168-70). De lá para cá a CETESB calou-se. Como num passe de mágica, parece que a contaminação existente no estuário evaporou-se devido ao aquecimento global. Mas, o mapa que vemos abaixo sobre a contaminação química na Baixada Santista elaborado pela CETESB não mente e indica os principais pontos de alto risco: portanto, cuidado ao passar por eles!

A população da Baixada Santista que vive encima de um verdadeiro lixão, não precisa que ele seja ampliado, pelo contrário, precisa que ele diminua. Precisamos gerar fontes de renda que não signifiquem trazer mais sujeira para um lugar que já está imundo. E precisamos de coragem para admitir e enfrentar isso ao invés de fazer como o avestruz que enterra a cara para fugir do perigo. A grande maioria da população não vive ou sobrevive das atividades econômicas que são ultra-poluentes. Podemos e devemos investir na transformação das atividades geradoras de renda na região. Precisamos urgentemente da ampliação das já existentes e da instalação de mais UNIVERSIDADES PÚBLICAS que permitam no futuro a criação de centros de pesquisa nas mais diversas áreas do conhecimento, geradores de inteligência e fonte de renda mais limpa para a população moradora. Precisamos manter aqui mesmo nossas melhores cabeças para criar o ambiente de reflexão crítica que nos falta. Precisamos urgentemente aumentar a capacidade de crítica e auto-crítica da população residente para se defender dos predadores que não vivem na região, somente a usam para exploração de seus negócios, acobertados por testas-de-ferro corruptos que agem na política, na imprensa e na pseudociência, sonegando as informações que não lhes interessam, comercializando reservas públicas da biosfera, e divulgando mentiras como se fossem verdade. Mais do que um crescimento econômico insustentável, que somente gerará mais estresse e violência, nós precisamos de meios para repensar a existência. É necessário abandonar a passividade, informar-se sobre a realidade e querer mudar o modo de viver. Interromper o processo de degradação da qualidade de vida que está em curso e que nos afeta diariamente. Inicie participando ativamente das reuniões públicas que querem nos vender a expansão portuária e industrial como um desenvolvimento positivo e sustentável. Acompanhe o blog do CAVE e permaneça informado.

Quem estiver interessado em ler o relatório de pesquisa “O mar nao ta pra peixe. Conflitos socio-ambientais na Baixada Santista”  sobre o impacto causado pelas atividades portuárias e industriais em cinco comunidades de pescadores da região a partir de um estudo do Zoneamento Ecológico-Econômico da Baixada Santista feito em 2006, clique no link a seguir http://www.4shared.com/document/HXHG5HOz/paperCarlo.html

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