Sustentabilidade: a escolha libertária III

Para aqueles que acham que os anarquistas somente fazem críticas, continuamos com nossa série de ações de A a Z a serem empreendidas para garantir um mundo equilibrado, responsável, igualitário, livre e sustentável.

Carne e combustíveis

É um dado conhecido que em cada passagem da cadeia alimentar grande parte da energia não é transferida para o elo seguinte: por exemplo, cada porco produz cinquenta quilogramas de proteínas consumindo setecentos e cinquenta quilogramas de proteínas vegetais. Resumindo,para produzir carne nas quantidades consumidas atualmente é utilizada uma quantidade de alimentos vegetais que sozinhos serviriam com folga às necessidades alimentícias de todos os habitantes do planeta. O aumento do consumo de carne portanto tem implicado , além das modificações do panorama agroflorestal e social de muitos países, o desperdício de potencialidades nutritivas enormes. A produção de combustíveis vegetais, caso mais recente, segue pelo mesmo caminho: além de aumentar o preço dos cereais em todos os mercados, colocando em dificuldade os consumidores mais pobres e somente trazendo vantagens para os produtores mais ricos, implica no uso de alimentos para a combustão, perdendo nessa transformação uma enorme quantidade de energia. Usar a produção agrícola somente para alimentação, reduzir a cadeia proteica, é a garantia de utilizar ao máximo as potencialidades dos ecossistemas naturais e da energia nelas existente.

Casas nos subúrbios

Modelo de urbanização que prevê a residência em locais afastados com uma casa de dimensões maiores do que o necessário, jardim, com todas as estruturas que as possibilidades econômicas permitem, e o trabalho na cidade. Um desperdício ambiental enorme, em termos de consumo de recursos, e de consumo energético para os deslocamentos. Para respirar um ar mais puro se percorre dezenas de quilômetros de carro, poluindo, uma das causas das alterações na atmosfera, diretamente provocadas pelo afastamento dos centros urbanos. Frequentemente não é uma escolha (as casas custam menos quanto mais distantes estão do centro) mas se fosse uma escolha seria ambientalmente e socialmente nociva. Deveríamos trabalhar no lugar e na comunidade em que se reside e permanecermos ali.

Causa-efeito

O modelo econômico e social praticado intervêm somente sobre os efeitos; dessa maneira, não faz autocrítica, nem modifica os comportamentos já consolidados criando novas mercadorias e ampliando o mercado existente; intervir nas causas obrigaria ao contrário, a uma mudança das práticas comuns e a uma redução na oferta de mercadorias. Cada ação eficaz voltada para a sustentabilidade trabalha sobre as causas e no caso, simultaneamente, para a redução dos efeitos.

Comunidade

Restabelecer as relações diretas entre os indivíduos e os recursos locais é o meio para reequilibrar a relação entre a população e o meio ambiente. Os indivíduos não tem consciência dos efeitos negativos que o seu comportamento produz em outros lugares; nem compreendem a importância da gestão adequada dos recursos existentes em seu território. Para refazer as relações deve-se sustentar a economia local, não sucumbir ao mercado global, e ampliar o espaço para a capacidade técnica e criativa dos indivíduos. O lugar social onde isso pode ocorrer são as comunidades de indivíduos, entendo isso como comunidades geográficas ou territoriais, autogestionadas, culturalmente homogêneas, mas não fechadas, economicamente e socialmente autônomas, capazes de administrar diretamente, em comum acordo, e de modo sustentável os recursos e o meio ambiente.

Comunidade aberta e identidade

O modelo econômico contemporâneo, para permitir a comercialização das mercadorias globalmente e de modo padronizado, desestrutura as comunidades locais. A cultura local é estreitamente ligada aos lugares, no sentido de que se alimenta da estreita relação existente entre o indivíduo e o meio ambiente em que ele está inserido. O distanciamento dessa relação aumenta o impacto ambiental na comunidade no lugar onde ela está estabelecida. A manutenção de uma cultura local é a única garantia par a permanência da comunidade e das relações entre essa e o meio ambiente. Isso não implica na criação de comunidades fechadas, nem na reorganização de antigas limitações sociais para a circulação de pessoas, implica exclusivamente na oportunidade de reencontrar um equilíbrio local, de sair do mercado capitalista e de suas imposições culturais, de conservar uma identidade; e tudo isso é possível através de uma contínua e positiva, mas autônoma, troca com as comunidades externas.

Concorrência/mercado livre

O desastre ambiental é detonado por uma hiperprodução que tenta reduzir os custos e ocupar segmentos de mercado sobre outros produtores. Desse modo, se produzem mercadorias desnecessárias (como o são grande parte daquelas produzidas na sociedade de consumo) que não satisfazem os consumidores (como grande parte daquelas da sociedade de consumo) e em quantidades muitas vezes superiores ás demandas do mercado (já inchado) em razão da grande quantidade de produtores. Essa condição é uma aberração no mercado global mas poderia não o ser em níveis locais onde os produtores produzem basicamente para as comunidades onde residem em função de suas demandas (limitando dessa forma o desperdício de energia para a fabricação, distribuição e comercialização).

Consumidores

A diferença entre um indivíduo e um consumidor é definida pelo nível de crítica apresentada em relação às promoções comerciais e à quantidade de mercadorias adquiridas. Na sociedade contemporânea não ser um consumidor é muito difícil mas a mudança de comportamento é a primeira garantia para a limitação do mercado global e para a redução do “peso ambiental” de nossa presença no planeta.

Consumo

Na sociedade de consumo as mercadorias não se consomem: são reduzidas a dejetos sem serem usadas completamente. A sociedade é portanto uma sociedade de resíduos, de descarte rápido das mercadorias, de desapego sentimental em relação aos bens utilizados. Os objetos são todos diferentes mas tornam-se indiferentes a quem os usa, e vem substituídos rapidamente sem deixar memória, somente uma profunda herança física (aquela do resíduo). Reduzir as compras, reduzir o consumo de mercadorias, manter os objetos por mais tempos, reutilizar objetos, gastá-los até seu fim, consertá-los, torna-se indispensável para frear uma produtividade que não nos traz nenhum bem estar.

Crescimento

O perseguição do crescimento é substancial para este modelo econômico e cultural. A riqueza dos países e das corporações é medida em quantidade de produto bruto e pela capacidade de aumentá-lo ano após ano. Mas os mesmos critérios governam a vida dos indivíduos. O crescimento individual advém quando a condição sucessiva é quantitativamente superior àquela precedente; quando existe a possibilidade econômica são substituídas as condições materiais por outras de maior quantidade (a casa de tamanho maior, o automóvel de maior cilindrada, o computador mais potente, etc.) Pois, o ilimitado crescimento material apesar de todos os esforços tecnológicos que possam ser feitos, não é praticável pelo fato de que, ao contrário, os recursos naturais, são limitados. Além da evidente inutilidade do crescimento quantitativo é oportuno considerar que não é possível perseguir o objetivo do crescimento; existe um limite que, por mais distante, que o queiramos colocar (mas que nós aqui o entendemos como estando muito, muito próximo), ele existe e ao ser alcançado implicará no bloqueio do crescimento. É, portanto, fundamental transformar o comportamento cultural repensando não somente a vida dos indivíduos mas também aquela da produção que deveria retirar as suas vantagens da qualidade da produção e não de sua quantidade, na continuidade temporal das atividades, na manutenção de uma quantidade de produtos conectada com as reais necessidades da comunidade a que esses eles são dirigidos.

Comércio ambulante

O meio mais ecológico para permitir a distribuição das mercadorias: um número limitado de mercadorias, em um meio de transporte alcança uma população parada. A movimentação pode ser de até duas toneladas. O modelo de centros comerciais está baseado nos deslocamentos dos indivíduos em quantidades médias de uma tonelada e meia per capita (além dos deslocamentos das mercadorias para os centros comerciais) o que torna evidente ser uma modalidade de alto consumo energético, além do que socialmente seletiva (quem não tem carro, quem não quer se deslocar, quem não pode se deslocar está excluído). Agilizar o pequeno comércio ambulante porta a porta tem um alto valor ambiental.

Demolição

Uma prática de construção civil em crescente difusão prevê a demolição de edifícios, mesmo que eles ainda estejam em boas condições, e a sua substituição por edifícios novos. Através disso conseguem dar formas mais contemporâneas às construções, aumentar o valor imobiliário dos edifícios, aumentar os empréstimos, obter mais lucros. Se do ponto de vista econômico é um negócio, do ponto de vista ambiental é um dano grave. A construção necessita de energia para a produção e transporte dos materiais e para a construção dos manufaturados; essa energia é guardada pelo edifício. No momento em que ele é derrubado toda essa energia é perdida. A ela soma-se a energia para a demolição, aquela para a limpeza e aquela necessária à construção de um novo edifício. Um prática profundamente insustentável que causa efeitos deletérios e também sociais: os novos residentes raramente são os mesmos que antes lá moravam nas antigas habitações (o aumento do valor imobiliário exige preços de aluguel e de venda superiores), e no caso de serem ainda os mesmos, se encontrariam em um contexto de moradia diferente aquele conhecido por eles. Existem muitas maneiras para intervir com o fim de de aumentar a qualidade dos edifícios, a demolição deles não é uma delas.

Distribuição

A mobilidade das mercadorias é uma das características do modelo do mercado global. As produções concentradas substituem as produções locais através de um custo menor obtido com o incremento da quantidade produzida e pela localização das unidades produtivas em territórios onde os controles ambientais são reduzidos e o custo da mão de obra é barato. Os custos ambientais e sociais conexos são enormes para o consumo de energia e as emissões relativas à hiperprodução e ao transporte, sem contar a total desestruturação do antigo aparelho produtivo local. Esta condição torna-se ainda mais grave quando é realizada no setor do agronegócio. Comer alimentos produzidos em territórios próximos, além de evitar o deslocamento das mercadorias e reduzir os consumos energéticos, fortalece economicamente as comunidades locais.

Desenvolvimento

O único desenvolvimento possível não é o econômico, é o cultural que não consome mercadorias nem polui a natureza.

Extraído de http://www.anarca-bolo.ch/a-rivista/337/dossier_sostenibilita.htm

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Arquivado em Agricultura familiar, Agricultura organica, Anarquismo, anti-globalizacao, Autonomismo, Contaminacao quimica, cooperativismo, Desenvolvimento sustentavel, Ecologia Social, Politica, poluiçao ambiental, relacao ser humano / natureza

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