IWURAPITA!!! A naçao Guarani resiste.

As comunidades tradicionais têm como base de organização uma estreita relação com o ambiente. Esta relação é não predatória, baseada principalmente na sustentabilidade (no sentido mais profundo desta palavra); ou seja, as relações sócio-culturais, ou mesmo a sobrevivência física do grupo, depende de sua capacidade de se relacionar equilibradamente com o ambiente, deste retirar o que é necessário e ao mesmo tempo preservar o seu território.

A nossa sociedade não possui uma visão, um parâmetro, do que é o mundo indígena, pois o nosso paradigma de existência é mediado apenas pela idéia de lucro, o qual vem gerando uma profunda crise ecológica mundial. Nossos modelos de produção se baseiam principalmente numa forma de exploração, visando o interesse do mercado; isto é, um único produto explorado até a exaustão e em um determinado território (monoculturas, lavra de minérios, etc), favorecendo uma forma de vida individualista e consumista.

Em contraposição, a produção tradicional sempre visará a sobrevivência do grupo e a preservação de sua área. Pois utilizará um território maior, onde vários produtos serão utilizados de forma sazonal e em rodízio, por exemplo: um determinado território fornecerá a caça, o outro a horticultura, o outro ainda a coleta, nunca até a exaustão, pois há uma grande preocupação nesta visão de mundo indígena, no equilíbrio de todas as partes do território e da relação deste com a comunidade, temos então um método coerente na utilização dos recursos naturais, baseado num conhecimento milenar da observação dos fenômenos naturais e, portanto, científico.

Os Guaranis compõe uma etnia indígena, que por muito tempo ocupou uma vasta área da mata Atlântica, e, é parte de sua vivência cultural a perambulação e a reciprocidade, ou seja, em suas caminhadas os Guaranis vivenciam sua relação sócio-cultural e de sobrevivência, em uma troca igualitária com o seu território. É exatamente esta perambulação, que permite a preservação das áreas em que estes se encontram. Caminhando os guaranis plantam, caçam, pescam e protegem o seu território, é por isto mesmo, e não por nenhuma coincidência, que este povo se encontra nas últimas áreas preservadas da Mata Atlântica. Onde há populações tradicionais, há maior chance de haver Mata preservada, a não ser que os “civilizados” interfiram.

Após 500 anos de contato e de massacre desta população e ainda, de uma destruição sem precedentes da Mata Atlântica, este povo viu seu espaço cada vez ser mais reduzido. Atualmente pouquíssimos aldeamentos possuem uma área possível de perambulação. O aldeamento do Rio Branco é um destes.

A preservação da área do Rio Branco e de seu entorno é, portanto, imprescindível para a sobrevivência da população Guarani e daquele território da Mata Atlântica.

Faz-se, também, necessária uma ampliação da área demarcada da reserva, garantindo assim, aos guaranis um aumento de seu território e a preservação de seus valores sócio-culturais.

Vendo pegadas de capivara em uma das margens já quase sem cascalho, o cacique Alcides não se surpreende:

“Mesmo com toda essa devastação, ela ainda vem beber aqui. Todo mundo depende do rio – nós, a mata e os bichos-, assim como o rio depende de todos. Preservamos isso aqui pensando na reserva inteira, e mais ainda, nas outras aldeias e nas cidades cuja vida é abastecida pelo rio Branco e pela mata em torno dele”

O cacique Alcides nos faz refletir: ‘até que ponto nós estamos também preocupados com as conseqüências ambientais de tais atos’, pois não é apenas a população guarani que será atingida, como está comprovado pela ciência e pelo bom senso, os danos ambientais atingem a todos nós, direta ou indiretamente.

Giulius Césari Gomes Aprígio (Historiador / Etnólogo)

Vera Lúcia Pontes de Oliveira (Historiadora / Etnóloga)

A seguir um video sobre a Aldeia Guarani do Rio Branco em Itanhaem, com a FALA SAGRADA do cacique Alcides:

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Arquivado em Baixada Santista, Indios Guarani, relacao ser humano / natureza

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