Arquivo do mês: julho 2010

Caiçaras ameaçados. Ilha Diana x Embraport

Desde o ano de 2006 o CAVE, COLETIVO ALTERNATIVA VERDE, vem realizando encontros com representantes da tradicional comunidade moradora da Ilha Diana através de sua associação de moradores e percebeu a preocupação existente na maior parte da comunidade com os impactos que serão causados pela construção do terminal portuário da EMBRAPORT em área adjacente à vila caiçara. Basicamente, os moradores têm dois grandes receios em relação ao que poderá ocorrer com a vila a partir do início dos trabalhos de construção, cuja previsão é de que se estendam por até sete anos.

O primeiro, é a preocupação de que as obras a serem realizadas, em particular a grande área de aterro sobre o manguezal existente entre os rios Sândi e Diana, possam provocar uma elevação dos níveis da maré enchente e que isso venha a causar inundações em suas residências.

O segundo, é em relação ao impacto direto que será sentido na principal atividade econômica da comunidade que é a pesca do camarão e também de outros peixes. A principal área de pesca da comunidade atualmente é aquela situada no encontro dos rios citados e do canal de Bertioga com o estuário, uma área em que há fartura de pescado em função de bancos de areia que se formam nesse local. O projeto de implantação do terminal prevê a dragagem de uma imensa área lateral do estuário, contígua a essa área de pesca e a construção de atracadouros para navios de grande porte. Uma provável redução do volume de peixes nessa área, principal fonte de renda e de alimento das famílias moradoras, levará a busca pelo sustento para áreas mais distantes encarecendo os custos da exploração do recurso e inviabilizando economicamente a atividade.

Com a crise de 2008, houve um atraso na execução das obras que agora se encontram quase que paralisadas à espera de investimentos. Mas isto foi por pouco tempo, a retomada do crescimento econômico fatalmente levará toda o estuário de Santos, desde a Ponta da Praia ate Cubatão, a ser tomado por mega-empreendimentos portuários. Na esteira do Embraport vislumbra-se o complexo Barnabé-Bagres, ensejando uma ampliação desordenada da Cloaca Máxima brasileira. E a isso chamam de desenvolvimento e de progresso!!!!!!!!!

Em 2007 quando se iniciaram as obras de desmatamento e aterramento na área da Embraport, em várias oportunidades a imprensa foi convidada a noticiar o problema, mas a comunidade obteve pouco sucesso na tentativa de paralisar a construção. No link abaixo reproduzimos uma das poucas notícias publicadas naquele ano num blog de pequena divulgação. Convidamos os leitores a acompanhar a notícia da época e perceber nos comentários que seguem no mesmo blog, a opinião e os argumntos daqueles que não concordam com a manutenção da comunidade de pesacadores da Ilha Diana nesse local.

http://www.ilhadianaresistindo.blogspot.com/

Os argumentos geralmente usados por advogados, biólogos e outros técnicos que se manifestam contrariamente à permanência dela são os de que a comunidade não é caiçara, que está instalada há pouco tempo (esse assentamento data de 1940 quando da transferência de pescadores que habitavam a atual área da Base Aérea), e de que eles também estão desconformes com a legislação ambiental, pois ocupam uma área de preservação permanente. E ainda por cima são pobres, atrapalhando a estética do lugar, se fossem gente de bem com suntuosas mansões, marinas, iates e luxuosos edifícios de mais de 20 andares vá lá, não é? Santa hipocrisia travestida de discurso técnico e jurídico. Estranho, porém, que os mesmos críticos da permanência da comunidade da Ilha Diana nesse lugar não comentem nada sobre impacto infinitamente maior que será causado pela implantação de mais um porto agro-exportador, o que parece ser a única inteligência possível que resta a um país de apedeutas. Vejam a imagem da maquete do novo porto da Embraport e comparem o seu tamanho ao tamanho da comunidade à direita. Por aí já é possível perceber o imenso impacto que será causado com danos sócio-ambientais irreparáveis.

Afinal será que essa deve ser a nossa sina, a de carregar nas costas como uma mula e exportar para o estrangeiro o resultado da destruição de nossas florestas: pau-brasil, açúcar, minérios, café e agora SOJA! Qual a monocultura que virá depois… será que haverá um depois!!!

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Novo Encontro Aberto do CAVE

Anarquia e Ecologia

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Carne: a floresta sangra na carne!

Esta semana que passou fomos brindados com a aprovação do novo Código Florestal brasileiro que permite, em linhas gerais, a significativa diminuição da reserva de mata legal nas propriedades agrícolas e o aumento do desmatamento (leia a noticia no Painel do Leitor) 

 http://eziobazzo.blogspot.com/2010/07/reforma-do-codigo-florestal-ou-uma-ode.html

Muitos argumentaram que o governo tenta legalizar e manter sob controle algo que vinha sendo feito ilegalmente pelos empreendedores contrariados em seus interesses e quase sem nenhuma fiscalização. Bom, mas pensando desse modo, poderíamos usar o mesmo argumento para permitir o assassinato de mulheres. Afinal o Bruno, o Misael e tantos outros homens contrariados em seus interesses mataram brutalmente suas amantes porque o governo não tornou legal a morte das mulheres; se já o tivesse feito, pelo menos elas teriam tido uma morte mais tranquila.

No centro do interesse corporativo brasileiro encontra-se o agro-negócio . Um negócio global gigantesco que envolve os produtores da monocultura, da criação intensiva, dos agrotóxicos, das sementes transgênicas, das indústrias químicas, das grandes redes de supermercado, da logística internacional de distribuição (ferroviária, rodoviária e naval) e dos mega-portos, entre o que lembramos aqui. Afinal com tanto crescimento econômico no Brasil trazido pelas exportações de commodities, a comitiva Lula e cia. não pode fazer por menos: vamos retribuir aos grandes capitalistas, afinal já dizia o Cardosão do troca-troca, é dando que se recebe. Escrever isto hoje em dia, num tempo de absoluta prostração da maior parte da sociedade capturada em quase todos os seus segmentos pelo BURROCRACIA, tornou-se jogar palavras ao vento. Porém, o registro se faz necessário para a posteridade.

No vídeo Carne, nossa companheira Cristina Dunaeva registrou imagens aéreas da devastação em Rondônia causada pela pecuária e em Mato Grosso pela soja. O desmatamento não impacta somente a floresta. A erosão destrói as nascentes, a poluição atinge as comunidades indígenas e o resultado final dessas atividades nos alcança também aqui. As imagens da EMBRAPORT iniciando as obras de seu terminal portuário no estuário de Santos, destruindo o pouco mangue que resta e transformando radicalmente a vida da comunidade de pescadores da Ilha Diana, que será engolida pelo empreendimento. Por trás do EMBRAPORT, o grupo COIMEX, um dos maiores conglomerados de distribuição de exportação de grãos pelo mundo afora. Assistam e vejam como tudo está interligado.

http://www.youtube.com/watch?v=7UK51K_m09I

 

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Marketing ambiental: Aqui não!

Quando no nosso primeiro post propusemos debater uma forma de desenvolvimento econômico que consideramos insustentável o fizemos porque entendemos que o momento atual da luta ambientalista é de profunda paralisia. Há uma anestesia geral da população com a captura da maior parte dos técnicos (biólogos, advogados, engenheiros, sociólogos) e, também, de grande parte dos ativistas, para atuar em modelos de gestão esquizofrênicos que partem do princípio paradoxal de aumentar os danos ambientais no futuro em troca de minimizar aqueles já causados no passado e chegam no marketing ambiental como meio de solução dos problemas.

As empresas instaladas na Baixada Santista abusam desse mecanismo de propaganda. Por exemplo, o outdoor da Fósfértil é verde enfatizando a cor de seu compromisso ambiental com a vida (mas, ela nos lega em forma de dejeto montanhas  amarelas de enxofre e fósforo).

A Cosipa fez propaganda de seu parque em Cubatão com os guarás-vermelhos voando felizes (mas, se alimentando de material orgânico contaminado com o benzo-a-pireno dejeto de seu processo de fabricação). A Dow, diz sua placa de publicidade, cuida dos jardins de Guarujá (mas mantêm enterrados em sua planta resíduos do ultra-tóxico agente laranja usado na Guerra do Vietnã). Olhando a publicidade, quem não conhece, pensa que Cubatão, que já recebeu o título de cidade mais poluída do mundo, realmente tornou-se uma cidade verde, o paraíso ecológico para o tratamento de asmáticos e tuberculosos (mas, quem a atravessa vê, respira, e sente o ar pesado que impregna o vale da morte). Leiam a matéria sobre Cubatão na Novo Milênio.

E a vocação portuária santista, símbolo do município, é martelada diariamente na imprensa pela propaganda dos terminais da Libra, da Coimex, entre outros (mas, os vazamentos de óleo, a dragagem do lodo contaminado, a destruição do pouco que resta dos manguezais e a poluição dos caminhões, não é noticiada). Por que?

A CETESB sabe do elevadíssimo grau de poluição atmosférica em Cubatão, sabe do elevadíssimo nível de contaminação por metais pesados do fundo do estuário de Santos e sabe os diferentes pontos onde estão enterrados os resíduos ultra-tóxicos, por exemplo, da Rodhia. Mas tem feito vista grossa nos últimos anos. O último trabalho de monitoramento desenvolvido pela CETESB e divulgado no ano de 2001, é categórico em afirmar que “alguns componentes encontrados nos sedimentos da região da Baixada Santista estão muitas vezes acima das concentrações que podem causar efeitos tóxicos aos organismos aquáticos”, apontando para áreas perigosas como “o rio Santo Amaro (ponto 8), próximo à indústria Dow Química, onde ocorrem concentrações de cádmio, chumbo, mercúrio, níquel, zinco, BHC, PAHs” (CETESB, 2001, Sistema estuarino de Santos e São Vicente: Programa de Controle de Poluição, p.168-70). De lá para cá a CETESB calou-se. Como num passe de mágica, parece que a contaminação existente no estuário evaporou-se devido ao aquecimento global. Mas, o mapa que vemos abaixo sobre a contaminação química na Baixada Santista elaborado pela CETESB não mente e indica os principais pontos de alto risco: portanto, cuidado ao passar por eles!

A população da Baixada Santista que vive encima de um verdadeiro lixão, não precisa que ele seja ampliado, pelo contrário, precisa que ele diminua. Precisamos gerar fontes de renda que não signifiquem trazer mais sujeira para um lugar que já está imundo. E precisamos de coragem para admitir e enfrentar isso ao invés de fazer como o avestruz que enterra a cara para fugir do perigo. A grande maioria da população não vive ou sobrevive das atividades econômicas que são ultra-poluentes. Podemos e devemos investir na transformação das atividades geradoras de renda na região. Precisamos urgentemente da ampliação das já existentes e da instalação de mais UNIVERSIDADES PÚBLICAS que permitam no futuro a criação de centros de pesquisa nas mais diversas áreas do conhecimento, geradores de inteligência e fonte de renda mais limpa para a população moradora. Precisamos manter aqui mesmo nossas melhores cabeças para criar o ambiente de reflexão crítica que nos falta. Precisamos urgentemente aumentar a capacidade de crítica e auto-crítica da população residente para se defender dos predadores que não vivem na região, somente a usam para exploração de seus negócios, acobertados por testas-de-ferro corruptos que agem na política, na imprensa e na pseudociência, sonegando as informações que não lhes interessam, comercializando reservas públicas da biosfera, e divulgando mentiras como se fossem verdade. Mais do que um crescimento econômico insustentável, que somente gerará mais estresse e violência, nós precisamos de meios para repensar a existência. É necessário abandonar a passividade, informar-se sobre a realidade e querer mudar o modo de viver. Interromper o processo de degradação da qualidade de vida que está em curso e que nos afeta diariamente. Inicie participando ativamente das reuniões públicas que querem nos vender a expansão portuária e industrial como um desenvolvimento positivo e sustentável. Acompanhe o blog do CAVE e permaneça informado.

Quem estiver interessado em ler o relatório de pesquisa “O mar nao ta pra peixe. Conflitos socio-ambientais na Baixada Santista”  sobre o impacto causado pelas atividades portuárias e industriais em cinco comunidades de pescadores da região a partir de um estudo do Zoneamento Ecológico-Econômico da Baixada Santista feito em 2006, clique no link a seguir http://www.4shared.com/document/HXHG5HOz/paperCarlo.html

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